A CULPA NÃO É DA AMANTE



Não poucas vezes vi mulheres culpando as amantes de seus maridos pela traição a que foram expostas ou até pelo fim de seu relacionamento. A justificativa pela culpa e por referências pesadas à tais mulheres com adjetivos do tipo bisca, vaca e afins, se embasa em que as mesmas seduziram seus homens de família e os obrigaram a serem desonestos com as suas companheiras. A mulher desconhecida, passa a ser a bruxa, enquanto o marido safado e traidor, é a pobre vítima do poder de conquista que tornam mulheres inescrupulosas, irresistíveis aos olhos de homens inocentes.


Não poucas vezes vejo as mulheres traídas lutando contra as amantes para terem seus

companheiros de volta, com a garra de quem tem certeza que o marido é o que há de melhor no mundo para ela e com a certeza de que se aquela amante não existisse, nada do que ocorreu teria ocorrido com outra. Juro que não compreendo. Julia não compreende.


Como mulher, e nadica de nada como bisca ou como vaca, venho aqui declarar em público que já me descobri amante. Isso mesmo. Não sabia que eu era. Caí como uma pata, bem Maria, em um papo furado de separação em andamento. No papo furado de um cara que conhece toda a minha família, apertava a mão do meu pai, convivia comigo no trabalho, conhecia a minha intimidade, visitava a minha casa e jurou de pés juntos que ele estava separado na prática e logo logo, estaria separado legalmente. Fala sério, difícil acreditar que alguém seria tão cara de pau a ponto de mentir em um contexto desses, não é? Pois é. Ele foi.


Eu, na época com 30 anos, menina de família, moralista, imensamente correta, muito muito leal a tudo e a todos, credora do amor romântico e dos caminhos do destino, apenas um ex namorado na vida e um puta de um coração ferido com o amor, caí. E quando descobri a mentira quase morri em uma mistura de profunda culpa, por ter sido tão idiota, com uma dor no peito insuportável, de tão apaixonada que eu estava. Chorei mais ou menos por um ano. Levei mais ou menos dois para esquecê-lo, isso porque a vida me esfregou na cara inúmeros outros atos podres do cara. Mas, durante esse tempo, até desencanar dele, fiquei me dividindo entre o desejo que ele se separasse e a culpa por desejar tal coisa, isso em nome da esposa enganada e da união feminina, que aliás, ao meu ver, seria bom que toda mulher tivesse uma com a outra.


Tudo isso enquanto provavelmente a vida do filho da puta, protagonista desta história, seguia como se eu nunca tivesse existido e como se nada tivesse ocorrido. A da esposa já não sei, porque nunca a vi e nem verei, mas torço para a vida dela tenha mudado para algo melhor do que deveria ser tendo ao seu lado um bosta de homem como é(era) o dela. E é nesse contexto que eu afirmo a vocês que Julia daria um murro na cara da esposa dele se a ouvisse me chamando de vaca, bisca e afins. Isso porque só eu sei o quanto Maria sofreu com as mentiras do mau caráter do esposo dela. O quanto fui simplesmente inocente em acreditar nele devido a minha eterna boa fé de Maria, e o quanto coube somente a mim ser forte e fechar as feridas tanto por não tê-lo, como por ter sido enganada, fato que faz Julia se sentir a rainha das idiotas.


O fato é: Nunca, absolutamente nunca a culpa pela traição ou pelo fim de um relacionamento entre parceiros é de uma terceira pessoa. Seja se esta sabia sobre o casamento do cara, seja principalmente se não sabia. Seja se o falso homem de família a enganou ou não. Seja se ela iniciou o flete ou ele. Seja se era solteira ou casada. Linda ou uma broaca. Nova ou velha. Rica ou pobre. Bisca ou puritana. Nada, absolutamente nada justifica, retira ou minimiza a responsabilidade de alguém que trai o companheiro. O comprometimento e o respeito com quem dividimos a cama e a vida devem ser nossos e não de um desconhecido.


Sei que ao saber que fomos traídas o peito dói demais, e é sim mais confortável se cegar

culpando um terceiro. Mas tiremos a venda dos olhos, mulherada, mesmo que isso nos custe uma mudança imensa de vida. Se o seu parceiro não estava sob ameaça de morte e lhe traiu, fez porque quis. Porque é um puta de um egoísta e dissimulado que não sente grandes coisas por você e nem pelo relacionamento de vocês. É um frouxo que não tem coragem de partir por si. Não faz ideia, nem superficial do que seja amor, e do que seja respeito.


Ajude-o a ir. A mulher que fica com um homem que trai não é quem ganha a disputa e sim quem a perde. A que ganha é a que se livra.

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