A ETERNA INSATISFEITA



Sempre tive problemas com fotos por me achar absolutamente gorda em todas. E a mim, mais especificamente à Julia, não interessava guardar para posteridade lembranças das minhas banhas. Mas sabe como é, né? Sempre tem algum infeliz (ou amplamente feliz) que quer tirá-las, justamente, para o contrário de mim, deixar toda pessoa e situação registradas para sempre.


Toda vez que a foto me era apresentada, eu pensava: “nossa, como estou gorda. Preciso emagrecer.”Acontece que depois de anos, quando por algum motivo as tais fotos vinham novamente à tona, eu as olhava e pensava: “nossa, como eu era magra há x anos.Como podia me achar gorda? Quem me dera hoje ser assim como eu era.”


Isso ocorreu a minha vida toda. Em 2005, quando vi as fotos de 2003; em 2008, quando vi as fotos de 2005; em 2010 quando vi as fotos de 2008 e assim por diante até a foto tirada a semana passada que também, como de costume, me fez pensar: “Nossa, como estou gorda. Magra eu era há dois anos.”


Bom, e se levar em consideração que nos últimos 15 anos vim engordando lentamente, eu realmente pareço mais fofa quando comparada com qualquer magreza anterior. Penso que cheguei em meu auge da obesidade (mental) e me desespero, porque sim, nunca fui tão gorda e porque sim também, sempre engordei mais e concluí que no passado não era gorda. Gorda sou é no presente.


Cruzes! O que acontece com a gente que sempre se enxerga maior do que é ou pelo menos, do que gostaria de ser? Será que a nóia cultural e antiga de magreza, gravada em nosso inconsciente, atinge os nossos olhos e resulta no fenômeno de nos enxergarmos mais largos do que somos? Mais pesados? Ou será que esse peso todo que vemos, além do que fisicamente temos, quando olhamos no espelho, reflete o nosso peso de alma humana eternamente insatisfeita?


Alma infeliz, viciada em enxergar sempre o que poderia ser melhor e não o que já está bom. O defeito e não as qualidades. Os fracassos e não as vitórias. O corpo e não os sentimentos. Valorizar o que ficou pra trás em um tempo impossível de voltar e por conta desse passado, que não valorizamos na época, desprezarmos novamente o nosso presente, reprovando-o, reprovando-nos, rejeitando-o, rejeitando-nos. Pecado.


A questão não é só o desespero de imaginar que em 2020 estarei bem mais gorda, se eu manter o mesmo ritmo de vida que mantive até agora, físico e emocional. E sim de me reconhecer como uma pessimista enrustida, que pensa que enxerga o lado bom de tudo, mas não enxerga o principal: o lado bom de mim que existe por trás de qualquer corpo e comportamento.


Vou cuidar para que os números da balança de 2020 não sejam maiores dos que os de 2019, por prevenção de problemas de saúde mesmo, porque por estética, já contei a vocês que tenho buscado apenas me sentir bem e tentado (e nem sempre ainda conseguido) não almejar a magreza que se vendeu como certa por muitos anos. Vou cuidar para que a minha vista não possua qualquer doença que enxergue corpos mais largos ou qualquer coisa pior do que realmente seja. Para que meu cérebro não precise do amanhã para valorizar o agora e assim, para que eu pare de perder tempo de vida feliz, com essa recorrente insatisfação.


Afinal, melhor mesmo é sempre o que está por vir, não é? Eu acho, mas bem que não seria nada ruim ser a “gorda” de 2005. Hoje me acharia magérrima. Ou será que não?

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