• Maria Julia

AMOR POR MIM: PALAVRAS DE UMA GORDA

Atualizado: 28 de Jan de 2019



Para as fotos de início desta nova categoria escolhi como cenário o bairro da Liberdade, em São Paulo. Para o figurino, roupas que além de me representarem, mostrassem o meu corpo como ele é. Nada de “isto não fica bem pra mim”. E tais escolhas não foram à toa.


Liberdade dos padrões pré-estabelecidos, pela sociedade, para os nossos corpos e comportamentos é o principal tema desta nova categoria da Maria Julia fala de amor, batizada de AMOR POR MIM. Aqui, juntos, praticaremos autoaceitação e amor-próprio, não necessariamente nessa ordem. Afinal, eu também tenho dificuldade de aceitar em mim muitas características e isso tortura o meu espírito e tumultua os meus dias. Mais precisamente, Julia tem.


Cada dobra do meu corpo surgiu em tentativas de driblar um monte de emoções, em diversas situações de vida. Do meu primeiro choro ao nascer até o último da semana passada. Representa a minha luta pela sobrevivência neste mundo onde os próprios seres humanos esquecem que são repletos de sentimentos e individualidades e assim, tentam enquadrar a si próprios e aos outros em determinados padrões corporais e comportamentais que na real, não servem para muitos corpos e almas desta Terra. Como se pertencer a tais padrões fosse passaporte para a felicidade ou nos tornasse dignos de estar no mundo.


Eu que sempre valorizei mais o que se é por dentro, do que o que se é por fora, mais conteúdo do que aparência, mais o que se sente, do que o que se mostra, acabei assim: grande de alma e de corpo.


Minha barriga foi aumentando conforme fui compensando, através de uma quantidade de doces e carboidratos nada inofensiva, minhas inseguranças, ansiedades, medos, frustrações, falta de alegria na vida e principalmente, de amor-próprio, entre outras coisas das quais ainda não adquiri consciência. Fiz da gordura minha autoproteção, a expressão de carinhos momentâneos em mim mesma. Carinhos que não muito posteriormente, tornaram-se motivos de autocondenação por ter comido excessivamente e sem critério. Nisso incluo pessoas e situações que em nada combinavam com a minha essência, mas as quais eu deixava que permanecessem em minha vida.


Já as coxas sempre foram grossas. Nasci com elas bem robustas. Acho que Deus me fez assim sabendo o tanto que eu teria que andar para algum dia chegar até mim mesma. Eu não gosto quando uso saia e elas raspam uma na outra, ardendo, quase me obrigando a parar e exigindo que eu diga, mesmo esfolada: “não não, não paro não.”. Vale dizer que por ironia ou incentivo do destino, saia é a minha roupa predileta.


Meu culote mostra a gana e a determinação que me tornaram um adulto de sucesso e/ou uma perfeccionista batalhadora e emocionalmente autodestrutiva. Dizem que ele me dá um corpo do tipo violão. Eu já o enxergo como um belo pandeiro, cheio de gordura e logo, de amortecimento, acostumado a tocar um samba para cada perrengue de vida: arma de Julia para defesa de Maria. Seu tamanho e remelexo materializam o meu grande poder de adaptação às mudanças. E o volume alto com que toca me estressa demais, a ponto de me dar fome. De doce. De paz.


Minha cintura fina faz todos que não me olham com atenção dos pés à cabeça acreditarem que sou composta apenas por Maria e portanto, de pura fragilidade. E só ao entrarem na minha vida percorrendo com atenção cada parte de mim, descobrirem a minha força e as potentes bundadas que Julia é capaz de dar em quem não me respeita.

Foi graças à Julia que minha papada diminuiu. Não deixo descer quase mais nada goela abaixo. Uma coisa ou outra ainda escapa, mas ao chegar em meu estômago, volta em forma de um vômito emagrecedor de alma. Bom, antes tarde do que nunca.


Também graças à Julia, estou deixando de enxergar meus defeitos como vergonhas ou motivos de autoaversão e sim como marcas da minha passagem intensa pela vida, sempre em busca da felicidade. Como particularidades que me tornam única, não no sentido de ser especial, mas de simplesmente ser quem sou.


Vamos combinar? Hoje começamos a alimentar o AMOR POR MIM, seja no blog, seja dentro de cada um de nós.


Amemos as dobras que Deus nos deu ou a vida nos levou a construirmos. Ou qualquer outra característica ou comportamento que, até o momento, julgamos como defeito. Eles carregam muito de nossa história e nos fizeram chegar até onde estamos, nos confortando ou desafiando. Muitos também nos levarão para onde queremos, depende do tamanho do nosso amor pelo que somos. Que sempre possamos nos compreender e crescermos, muito além das aparências: sermos grandes de consciência e leves de alma. Quanto ao corpo, tanto faz.

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