CAROLINA É UMA MENINA BEM DIFÍCIL DE ESQUECER



Eles se conheceram e para Carolina, pareciam ser tampa e panela. A paixão tomou conta de ambos. De Carolina a ponto de fazê-la crer que ele era o amor de sua vida. De Vinícius, o suficiente para que ele ficasse comprometido em fazê-la acreditar que ele era mesmo o amor da vida dela.


Carolina é linda, morena e vitaminada. Perfil bem brasileiro, inclusive emocionalmente

falando, do tipo que não desiste nunca dos desafios e carrega no sangue uma força

transformadora. Ela é batalhadora, trabalhadora, cabeça centrada e conta bancária no azul. Ambiciosa, determinada, mulher que faz acontecer. Cheia de sonhos de Maria e metas de Julia. Lotada de sensibilidade de Maria e garra de Julia. Altruísta. Para ela tudo tinha conserto. Sempre foi forte para correr atrás do que quer, forte para conseguir, forte até para sofrer. Filha de mãe muito amada. Filha da melhor amiga.


Vinícius era imaturo, mas tudo bem. Um tanto quanto sem valores morais, mas tudo bem. Um tanto egoísta, mas tudo bem. Muito sexual, mas tudo bem também. Aquele tipo sedutor safado, mas tudo, tudo bem mesmo. Tudo muito bem para a apaixonada e valente Carolina. Todo e quaisquer defeitos eram como se fossem momentâneos e não traços indicativos de perigo de profunda dor futura no coração. Os defeitos dele, enxergados superficialmente por Carol, para ela, faziam parte da idade, da criação, das condições de vida, da desestrutura familiar na qual cresceu, da falta de oportunidades e tudo bem.


Ele que de bobo não tinha nada, fez uso e abuso de máscaras e fantasias vitimistas, que faziam Carol achar que tudo que faltava a ele era amadurecimento, e que o mesmo viria um dia. E que ela poderia contribuir com isso. As diferenças entre eles, ao ver dela, seriam vencidas pelo tempo, pelo amor e pela natural evolução do rapaz. O incentivou a estudar. O incentivou a trabalhar. O convidou para viver com ela dentro de sua casa, ou melhor, da casa de sua mãe.

Carol empurrava Vinícius para o alto, sem perceber que ele a empurrava para a beira do

precipício emocional, fingindo-se de coitado.


A fantasia de coitado é uma das mais poderosas para se enganar e confundir o outro. Afinal, o vitimismo parece conseguir justificar o que poderia ser considerado mau caratismo e assim Vinícius foi levando Carol. Ela foi se doando de corpo e alma. E ele foi querendo cada vez mais corpo e submetendo a alma dela ao seu bel prazer. Como bom manipulador, batia e abraçava, fazendo-a acreditar que tudo dependia apenas dela e que Carol não era tão boa assim como imaginava. De repente, ele se afastou.


Fez a culpa que por ele havia sido plantada e regada diariamente e o desespero dela

consequente de tudo isso, tomarem conta de Carol. Segundo ele, ela era falha na cama, falha no trato, falha no relacionamento, falha como mulher, falha para ele que se achava foda, mas não era nada mais do que um cara perturbado. Total ignorante do amor.


Ela só percebeu o jogo de Vinícius quando ele disse sentir desejo de comer algo além do que havia na despensa de sua casa. Quis comer a mãe de Carol. Quis comer a moral, os valores, a vida reta dela. Quis comer, como um monstro devorador, a crença de Carol no ser humano e nos bons valores de vida, os sonhos de uma menina. Quis comer seu coração e sua mente, para tê-la em suas mãos.


Saber que seu namorado deseja outra é uma facada no peito que dói demais, mas saber que o seu namorado deseja a sua mãe é um tiro capaz de nos matar e nos enviar para uma nova vida em um curto intervalo de tempo. Tipo uma ressurreição. É uma dor tão profunda que coloca o cérebro para funcionar. Fez Carolina perceber que ela havia posto para dentro do peito e de casa alguém tão atrasado de espírito, que pouco provavelmente iria progredir, ainda nesta vida, a ponto de entender o que é realmente o amor.


Carol chorou ininterruptamente até perceber que a principal culpa pelo fim do relacionamento com Vinícius não era dela e que estamos sujeitos a nos depararmos com pessoas muito diferentes de nós, neste mundo que mistura pessoas de diferentes graus evolutivos em relação à concepção de amar. E as pessoas acabam se unindo não necessariamente pela essência comum de ambos, mas equivocadamente também por sentimentos momentâneos das partes, que se afinizam. E com o tempo, se separam pelas divergências de essências que chegam à tona. No momento em que Carol não se rendeu por culpa pelo fracasso do relacionamento, Vinícius partiu de vez.


Não podemos mais confundir a necessidade de ajudar o próximo, compreendendo e

respeitando seu estado evolutivo, com a ilusão de tornar alguém oposto à nossa essência em parte de nossas vidas, parte de nós. Não podemos acreditar que na convivência humana tudo tem conserto e que um abismo moral que divide duas pessoas não é significativo e destrutivo para a parte mais sensível. Muito menos que o gostar tem igual valor e se realiza da mesma maneira para todos. Para convivermos emocionalmente, temos sempre que filtrar e buscar gente igual ou bem parecida com a gente.


Carol virou uma Maria Julia equilibrada, perspicaz, sensível, mas consciente. Não se tornou descrente do amor. Na verdade, esse tipo de mulher forte e sonhadora não desiste nunca do amor. Carol só está cansada. E muito provavelmente ficará assim por um tempo.


Ainda dói nela imaginar que Vinicius a esqueceu facilmente. Mas isso não é verdade. Ninguém esquece uma mulher digna como Carolina do dia para a noite. No máximo parte para outra sem pensar muito, por perceber que a outra parte não caiu na dele e ele, por sua vez, não foi e não é homem capaz de viver com mulheres de alta categoria espiritual, como é Carol.


Uma bosta de homem é o que ele é.

79 visualizações0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo

Contato

3.png
190505.png