CARTAS NA MESA



Sentia-me uma bola de pingue pongue, que sacada pela vida (poderosa no ato de sacar) e sedenta por respostas, bateu de canto em canto, de parede em parede, foi e voltou em todas as direções até cair estática no fundo do poço, esperando que alguém me movimentasse novamente e me garantisse algo sem riscos futuros de sofrimento, seja lá como isso fosse. Já não aguentava mais sentir. Nem pensar. Nem rezar. Nem viver. Jejum.


Encontrava-me desgastada porque como um arquivo eletrônico desgovernado, havia recapitulado em um ritmo frenético e através de uma metodologia estressante de looping, aquela que faz você se sentir ora certa, ora errada na mesma situação analisada, quase todas as lembranças das últimas semanas, muitas dos últimos meses e algumas da última década do relacionamento. Lembranças com as quais eu pudesse tentar deduzir o real motivo que havia levado Jorge a romper o noivado comigo e se teria algo a ser feito para que voltássemos. Como uma drogada, no ápice da abstinência, sem refletir se ficar com ele era bom mesmo para mim, Maria ainda o queria de volta. Teria volta? Eu não sabia. Ansiedade.


Mas alguém deveria saber. Alguém haveria de ter o poder de devolver à Maria a segurança que ela perdera. Devolver seu conforto, seu descanso no colinho quentinho da vida. Alguém deveria, inclusive, conseguir prever se haveria felicidade em um retorno de relacionamento com Jorge. Afinal, se Maria temia o que seria de mim caso não voltássemos, Julia já temia o que seria de mim se o relacionamento tivesse uma volta sem qualidade, com as mesmas ou novas situações emocionalmente destrutivas. Jorge mudaria seu jeito opressor? Seus valores de vida? Chocolate, por favor.


Eu seria feliz com ele? E sem ele? Maria queria adentrar a biblioteca dos destinos para tomar conhecimento do que iria acontecer com o meu. Nós não sabemos de tudo, mas muito provavelmente o além sabe, não sabe? Não dizem que temos que deixar nas mãos de Deus? Deixarmos a vida resolver? Cartas de tarot na mesa! Maria colocou-as ignorando as cartas na mesa já postas pela vida e que entregavam a mim a responsabilidade pelo meu futuro. Não é bem verdade essa coisa de tudo nas mãos de Deus. Doce de leite, por favor.


É revoltante para qualquer desesperada amorosa aceitar que não há futuro promissor com quem queremos. Mas o fato é que o destino com alguém depende também do livre arbítrio do outro, de vários acertos entre as partes envolvidas e de cada parte com o Universo, os quais muitas vezes são invisíveis, nem sonhamos existirem, ou o nosso consciente desconhece. Acertos que estão fora do nosso controle, Carro* invertido, e que podem tornar as situações impossíveis para um momento ou para a vida inteira, Enforcado*. Pipoca com sorvete, por favor.


As previsões em relação a Jorge não eram boas. Nem o tarot acreditava em nós. As mudanças necessárias a ele para que seguíssemos juntos envolveriam caráter. Havia um abismo moral entre mim e ele. Havia também um abismo de objetivos de vida. Torre*, fim de ciclo, dizia o baralho. Não insistir era o conselho, mas se eu não quisesse segui-lo, Enamorados*, livre arbítrio, entretanto, nesse caso, totalmente limitado de felicidade. Chamado da vida para a escolha consciente de meu futuro. Plantar e colher. Brigadeiro, por favor.


As tendências de futuro reveladas pelas cartas, sempre coerentes com as ações de Jorge no presente, deixaram Maria com receio de continuar desejando-o. Despertaram também a certeza em Julia de que a luta por Jorge não deveria prosseguir, pois era sinônimo de infelicidade. Convencida de que o melhor a ser feito era partir para outra, só me restava desejar Dois de Copas* de reconciliação com a vida, com a qual Maria estava estremecida desde que Jorge partiu. Casadinho, por favor.


Eu queria reinício, nova fase, Mundo*. Queria nova chance, Julgamento*. Julia queria exercitar o impulso de leveza, de coragem, de desapego, para me lançar no desconhecido, como quem tem a certeza que está tendo o melhor, como o Louco*. Red Bull, por favor.


Maria pediu para que o tarot verificasse se haveria Dez de Copas*, realização, final feliz, no meu futuro sem Jorge. Gelatina em cubos, colorida e refrescante, com leite condensado, por favor. O baralho respondeu: “Quer destino feliz? Construa-o.” Biotônico, por favor.


Cartas na mesa. Da mesa para as rédeas da minha mão. Para a felicidade: realidade! Aceitação para o que não podemos modificar, boas escolhas e boas ações para o que podemos. Mesmo que a única solução seja mudar de rumo, ainda assim, fazê-lo é uma escolha.


Espinafre. Avante.




*Arcanos do tarot

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