CUIDADO AO BATER A PORTA DA SAÍDA

Atualizado: 9 de Ago de 2018



Quando Jorge foi embora, Julia ficou por tempos o condenando mentalmente como se ele fosse um criminoso por ter desistido do nosso relacionamento. Por sua vez, meu lado Maria punia o meu lado Julia por estar revoltado, julgando Jorge pela decisão de partir. No fundo, por mais que Julia sentisse revolta, estimulada pela dor de Maria, ambas tinham consciência de que ir embora era um direito de Jorge, afinal, ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento no qual julga estar infeliz.


Eu tinha que aceitar e seguir a minha vida, mas permaneci nesse círculo vicioso de pensamentos de condenação a Jorge e de autocondenação por isso durante todo o tempo pelo qual estive emocionalmente destruída. Sem conseguir me libertar do passado e aceitar o fim, me adjetivava, injustamente, de egoísta, egocêntrica e mimada. Eu ainda acreditava que o meu sofrimento estava ocorrendo simplesmente por minha incapacidade de aceitar que alguém não me quisesse.


Por conta das crenças de Maria de que os sentimentos dos outros são sempre mais importantes do que os meus e do jogo manipulador de Jorge que acentuava tal crença em mim, eu não conseguia perceber que além da dor pela perda e pela rejeição dele, eu possuía sentimentos profundos e duradouros, e comportamentos, consequentes do desrespeito que Jorge teve por mim ao partir. Minha dor, revolta e estagnação iam além do fim do relacionamento ou do fato dele não me querer.


Descobri isso depois de conhecer outros caras e viver com eles relacionamentos do começo a finais repletos de posturas e palavras transparentes, corretas e respeitosas. Percebi que as rupturas que partiram deles também me causaram tristeza, mas independente da minha concordância ou não com o fim da relação, não me enfureceram e nem me deixaram a níveis emocionais lastimáveis, presa a eles por mágoa e raiva, por grande período de tempo.


E esse é o ponto no qual pretendo chegar. Constatei que a não aceitação pelo fim de um relacionamento está muito mais ligada à forma como o fim ocorre, do que ao fim em si. Mais do que a partida de Jorge, depois de um tempo, ainda me consumiam e me prendiam a ele o sofrimento pelas lembranças das ofensas ditas, pelas culpas injustas que ele me atribuiu, pelas manipulações, pelo abuso emocional, pela traição e pouco caso a mim e a nossa história. E por esse aspecto, a minha condenação mental a ele se tornava compreensível.


A verdade é que não nos acabamos apenas por partidas, mas principalmente pela forma como o parceiro fecha a porta da saída de nossas vidas. Bater a porta do coração de alguém de modo desrespeitoso mostra menosprezo pela história vivida, mas principalmente despreocupação com o futuro de quem fica, pois tal atitude desmorona a estrutura do outro, dificultando-o ou até impedindo-o de seguir em frente. E isso é injusto e destrutivo.


A perda e a rejeição doem demais, mas creio que o desrespeito, quando existente, seja a pior das dores de um fim. É o mais difícil de ser superado. Nada mais digno do que quem quer ir embora da vida de alguém fazê-lo com responsabilidade. Respeito deve estar presente o tempo todo nas relações humanas, incluso no momento da partida. Amor ao próximo sempre!

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