DE PERNAS PARA O AR: SOBRE CAIR ESTICADA NO PRIMEIRO ENCONTRO



Era mais um primeiro encontro em busca da pessoa com quem valesse a pena eu me relacionar. O oposto do cafajeste era o que a minha razão, Julia, buscava, em detrimento dos tipos que Maria gostava. Era o primeiro encontro após o avalanche de tranqueiras em minha vida. Era amigo de uma amiga e indicações merecem atenção, podem ser promissoras.


Ele gentilmente se propôs a me buscar em casa. Ponto para ele. Eu aceitei, já que era um conhecido, mas o ministério da segurança adverte para nunca fazermos isso com desconhecidos. Para o jantar me produzi de deixar qualquer um com o queixo caído. Coisas de Julia. O moço se mostrou encantado com a minha aparência, mas também interessado em saber do que eu gostava e desta forma, me levou em um restaurante do meu agrado. Mais um ponto para ele.


Abriu e fechou todas as vezes a porta do carro: cavalheirismo que não é machismo, no sentido de gentileza. Ponto para ele. Entramos no restaurante e sentamos cada um de um lado da mesa. O rapaz falava bem, tinha papo bom, era educado e respeitoso. Bom moço, ponto pra ele. Mas não fazia em nada meu tipo físico. E talvez por isso, não havia química. Retiro os pontos.


Ocorreu aquela coisa de não haver atração, vontade, desejo de passar da amizade. Durante o jantar, portanto, eu já havia decidido que não sairíamos mais, embora o rapaz merecesse sim o crédito de outras saídas pelo seu jeito de ser. Mas não adianta, quando não vai, não vai. E Maria que só fazia escolhas pelo coração, não deixava ainda Julia fazer escolhas racionais do tipo “este vale a pena”. Em parte, Maria tem razão, ninguém merecesse estar com alguém por quem não bate nadinha o coração.


Eu sentia o rapaz encantado por mim, provavelmente por Maria, meiga e charmosa, e já pensava como faria para delicadamente e sem magoá-lo, parar com a nossa não existente relação naquele jantar. Romper rapidamente a esperança do moço era o objetivo para Julia. Mas fazê-lo sem feri-lo era atitude da qual Maria não abria mão.

O assunto acabou, ele pediu a conta. Nitidamente ele não via a hora de me beijar e isso atormentava tanto Julia, quanto Maria. Cadê o buraco negro para eu me jogar dentro dele e só sair quando o rapaz não estiver mais aqui e eu não tiver que dizer “não” a ele? Curioso é como a principal característica de quem sempre leva o pé na bunda é que não sabe dá-lo nem sob merecimento do outro, o que dirá sob o não merecimento. Coisas de Maria mole.


A mesa na qual estávamos sentados era com bancos fixos. Fui deslizando, no sentido da saída e obviamente, do fim do banco. Deslizando e sorrindo, deslizando e refletindo, razoavelmente feliz por estarmos indo embora, razoavelmente apreensiva com a hora do beijo que eu não queria ou com a hora do “não”, com o qual Maria tinha dificuldades.


Ocorreu que nessa confusão mental toda, pensamentos de Maria e Julia a mil me enlouquecendo, me distraí da realidade de deslizar até o fim do banco e levantar e seguí deslizando para além do banco até que sentei em falso em sua continuidade inexistente e caí esticada no chão, como um pacote, com as pernas para cima e minhas glamourosas sandálias douradas apontadas para o alto. Não posso negar que até para cair a metida de Julia me conduz com classe. Agora mais do que nunca, “cadê o buraco negro, por favor?!”.


Esticada no chão, senti mais de mil emoções ao mesmo tempo: vergonha, desespero, constrangimento e graça. Quando vi a cara do rapaz me olhando com pena de mim e vindo em minha direção me levantar, me deu um ataque de riso de doer a barriga. Eu gargalhava de tal maneira que perdi as forças no corpo. Me curvava para os lados e ria como se não houvesse amanhã. O rapaz me puxava pelo braço querendo me ajudar e tudo que eu conseguia fazer para corresponder ao auxílio era rir desesperadamente. Não conseguia me erguer do chão como se fosse, além de um pacote, um pacote gordo de 200 kg. Rir loucamente da própria desgraça é coisa de Julia, que não perde a pose nunca, o que dirá na falta do buraco negro que Maria certamente queria se enfiar.


Levantei do chão como uma dama. Olhei para o rapaz que estava mais constrangido do que eu e tive a certeza que nunca mais sairíamos em razão da queda, no caso, da minha. Pensei que a minha queda física tivesse feito a emocional dele por mim ir embora. Nem fiquei triste, já que isso teoricamente resolveria o problema de desligamento dele sem eu ter que dizer o difícil “não” a ele.


Saímos do restaurante. Entramos no carro. Eu estava tranquila, certa do fim e portanto, desarmada, quando ele me beijou. Fiquei imóvel. A minha queda não havia acabado com a dele. Naquele momento me dei conta que ele havia identificado a minha Julia e se encantado também por ela, ou seja, por mim por completo. Era a primeira vez que isso ocorria na minha vida, já que a maioria dos homens fogem de Julia. Mais um ponto pra ele.


Difícil é encontrar homem assim. Quando encontramos, é realmente de cair esticada. E, literalmente, caí.

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