DECISÕES DE BAIXA AUTOESTIMA

Atualizado: 9 de Jul de 2018



Praticamente em todo fim de relacionamento alguém nos diagnostica com baixa autoestima. O outro era sempre pouco para nós e nós não nos valorizamos ao nos envolvermos com ele. Feio, pobre, acomodado, possessivo, desequilibrado, complicado, mimado, pouco digno de amor. Menos isso, menos aquilo, não merecedor do ser maravilhoso que somos. Muitas das vezes esse apontamento vem com o intuito de nos consolar frente à perda de alguém. Coisas ditas da boca para fora por quem nos quer bem.


Mas outras vezes são críticas que nos acusam, de verdade, de falta de amor próprio. Como se tudo na vida fosse previsível. Como se as pessoas viessem com descrição emocional e comportamental gravadas na testa. Como se fossemos perfeitos e só pudesse estar ao nosso lado alguém tão perfeito quanto nós. Como se superficialidades e exterioridades dissessem algo ou fossem importantes. Como se qualquer coisa apresentada pelo outro, através das comuns máscaras usadas nos primeiros encontros, fosse verdade fixa para uma vida toda. Não é bem assim. Nem para o que é bom. Nem para o que é ruim.


E tais julgamentos sobre a nossa suposta baixa autovalorização nos ferem pela parcialidade ou totalidade da injustiça. Isso porque a nossa história real, tal como nossas crenças e valores, que nos conduzem a encarar ou não uma determinada situação, não são tão visíveis aos olhos de quem está de fora, como os de fora sempre acham que são.


É bem verdade que às vezes a nossa autoestima não nasceu ou foi para o espaço por uma fase de vida. Maria sabe bem disso. Mas também é verdade que quem acredita no outro, na vida e em si tem mais chances de apostar em pessoas ou em situações novas, que só o futuro será capaz de mostrar que não mereciam a aposta. Destaco: o futuro.


Salvas raras exceções em que fatos nada promissores ficam evidenciados no início do relacionamento, apostar que algo dará certo é crer na construção das relações. É aceitar as imperfeições do ser humano, as nossas inclusive. É respeitar o valor que todos possuem, além de aparências e das aparências. É confiar nos ajustes que a vida faz. Nas surpresas dela. Nas lições que cada pessoa que passa por nós traz. É acreditar no progresso dos outros, além do nosso. É coisa de Maria, porque é coisa de alma sonhadora, profunda, cheia de fé e humana pra cacete. É também coisa de Julia, repleta de autoconfiança e garra para lutar e erguer realidades. É coisa de gente completa, forte e corajosa.


Outro dia, em uma conversa de bar, enquanto falávamos de um ex-namorado meu, uma moça bateu na mesa com um ar de repreensão, insinuando a tal baixa autoestima em mim, me questionando como pude dar chance a alguém tão feio. Apesar de seu comentário mesquinho e sem lógica na minha visão de vida e relações, impedi que Julia a mandasse à merda e esclareci: foi Maria, que não vê cara e vê coração. Que acredita além de si. Que crê na vida. Foi também Julia que é destemida e tenta, sempre que julga viável tentar. Crê nela mesma. Foram elas duas, juntas, que aproveitam as oportunidades que a vida traz, pois sabem que colherão futuro bom, quando o tempo mostrar que o terreno do outro lado era ou se tornou fértil para o plantio, independente da beleza. Foram elas, que compreendem que só pessoas que enxergam além, acreditam e apostam possuem grandes conquistas.


Querer um feio é baixa autoestima? Pagar pra ver também é? Não necessariamente. Baixa autoestima é permanecer em situações que já se provaram prejudiciais e inférteis, pela convivência e pelo tempo. Já tive. Tenho recaídas. Todos têm, mas nem sempre. Não foi o caso, no caso do feio.


Baixa autoestima tem quem muito julga e sempre enquadra o outro em algum nível inferior, escondendo, principalmente, por trás de tal postura, a falta de confiança em si para se lançar nos convites da vida e virar jogos, quando preciso for, assumindo as responsabilidades intrínsecas a isso. E por não ter estima por si, não se arrisca, não se atreve e nem se aprofunda em nada que não seja perfeito e/ou garantido à primeira vista, perdendo assim muita chance de se fazer feliz de verdade.

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