• Maria Julia

DO PINTO AO PONTO PRINCIPAL



Era a primeira vez que eu desejava que o pinto de alguém caísse. E não me arrependo. Julia desejou com vontade, de lá do fundo do meu ser, que o pinto de Jorge despencasse e se comportasse como uma âncora capaz de puxá-lo para baixo. Não no intuito de que ele tivesse a vida arruinada. Isso não. Porque não sou dessas que deseja um mal tão grande para os outros. Maria não deixa. Mas Julia é dessas que deseja justiça ao seu modo.


Julia queria vê-lo imóvel, dobrado sobre si mesmo, no fundo das profundezas dos sentimentos, onde a única coisa que ele conseguisse movimentar livremente fosse seu cérebro. Mais precisamente, sua mente. Mais pontualmente, sua consciência. Poderia mover também as mãos, controladamente. O suficiente para colocá-las na consciência, pensar sobre o que fez comigo e se arrepender, é claro.


Na consciência, ou melhor, na não consciência que o fez me transformar no que sou agora. Um lado muito bom, de nascença, Maria, outro lado que aprendeu a não ser tão camarada assim, Julia. Julia queria que no momento que o membro inferior dele caísse, a consciência expandisse na mesma velocidade e então, ele se tornasse capaz de respeitar a alma de uma mulher, bem brega assim mesmo.


Queria que ele se sentisse no outono, desabando, e que reconhecesse a necessidade de florescer na próxima estação como alguém melhor, assim como Maria já é, assim como ela constantemente faz. E que a partir de então, fosse capaz de atrair pessoas de maneira transparente, responsável, respeitosa, sendo sedução, mas também alimento saudável e não algo capaz de matar o outro por envenenamento direto e indireto. Isso porque além do mal que alguém pode fazer ao outro, há o mal que o outro a partir de então, em função do que lhe fizeram, muitas vezes, também passa a fazer a si próprio. Louco assim.


Sem rodeios e sem a tal da hipocrisia que controla os humanos constantemente bondosos desta Terra, por um momento isenta da doçura sincera e da sabedoria do meu lado Maria, dominada por Julia, neste corpo que também a pertence, eu gostaria mesmo que ele ficasse solitário e sofredor, assistindo a minha total felicidade por um tempo determinado. Tempo suficiente para eu ter a certeza de que se aqui se faz, aqui também se paga.


Isso é desejar justiça, não é? Nada de outro mundo, nada de demais! Aliás, coisa de Julia e deste mundo. Crescimento pela dor, pela mesma dor que ele me fez sentir. Pela mesma dor que cresci. Pela mesma dor que ainda cresço. Pela mesma dor que quando ainda vem me joga para baixo e depois para o alto e para frente na vida. Muito à frente. Sempre à frente. À frente dele, inclusive.

© 2018 por Maria Júlia fala de amor. Todos os direitos reservados.