• Maria Julia

MULHERES DE PEITO

Atualizado: 30 de Abr de 2019



Se os homens soubessem o quanto são broxantes certas coisas que dizem, pensando com a cabeça de baixo, a nós mulheres que pensamos com a verdadeira cabeça do ser humano, creio que calariam a boca. Há comentários que revelam os pensamentos ridículos do outro e se tornam decisivos, para quem os escuta, escolher sobre o rumo do relacionamento. Foi assim comigo quando antes de mais uma saída com João fui surpreendida por uma mensagem no celular, na qual ele me pedia que eu usasse blusa decotada em nosso encontro, afinal, ele era apaixonado por peitos.


Pensem, pensem o quanto tal mensagem paralisou por segundos Maria em seu romantismo e Julia em seu empoderamento, sendo que tanto esta como aquela detestam homens que enxergam mulheres como um objeto sexualmente atraente. Não foi pouco não. Depois do fato raro das duas concordarem em algo, obviamente ignorei o resto do conteúdo da mensagem que dizia gentilmente ou sexualmente, sei lá, que eu estava sempre linda, e me apeguei apenas à parte do decote, o determinante para eu ter a certeza que, diante dos meus valores de vida, eu estava saindo com um babaca e sendo assim, nenhum outro discurso me importava mais.


Meus pais sempre me pediram coragem, exigiram determinação, constante superação e isso, somado aos sofrimentos da vida, incluso os amorosos, fez Julia ir desabrochando até explodir em mim e em seu ápice, me tornar uma mulher de peito. No sentido figurado da palavra, é claro. Sinônimo de mulher de garra. Ocorre que de garras à mostra e seios escondidos, inicialmente por meus pais, por moralismo fruto de suas épocas, os quais naturalmente foram passados a mim, mas posteriormente, por minha opção mesmo.


Nada contra quem gosta de mostrar os seios, mas particularmente eu não faço questão. Não os considero o meu ponto forte. Aliás, acho eles bem miúdos, murchos e caídos, incomparáveis com a sedução que carrega o meu peito cheio, grande e empinado de gana de vencer.


E é esse peito que eu prefiro mostrar. O peito que frequentemente se estufa de sentimentos positivos, me move para que eu faça cada vez mais conquistas nos mais diversos departamentos da vida. O melhor peito em mim, que ganha por competência e pela inteligência tanto os homens com M maiúsculo, quanto as mulheres e a vida em geral. É um peito não muito visível aos olhos, mas facilmente enxergado e sentido por quem tem o prazer, ou desprazer, de trocar algumas palavras comigo, com Julia mais especificamente.


Lamento João não ter enxergado esse meu peito. Estou certa que isso nada teve a ver com a falta de decote da minha blusa, mas com a falta de bestunto da sua cabeça, a de cima, e as de baixo, ora bolas, das três que veem beleza física antes de qualquer outra. A cabeça verdadeira de João e infelizmente, a de muitos homens, ainda não entendeu que o poder da mulher está além do que ela guarda atrás do sutiã e da calcinha. Está nos sentimentos que ela carrega no coração e no conteúdo de alto nível que ela busca adquirir e expandir diariamente na cabeça, evoluindo como pessoa, e se conduzindo, inclusive, para não se render a qualquer idiota. A evolução dela e do mundo, diga-se de passagem.


Como não me interesso por homens que não possuem na cabeça de cima nada além de instinto, não saí nem com e nem sem decote. Não saí mais com João. Antes ser sozinha do que passar a vida tendo que manter os seios em pé, para ser considerada atraente por um homem de pensamento, peito e pinto frouxo, os dois últimos como sinônimos, no sentido figurado das palavras.

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