• Maria Julia

NESTA VIDA TODO MUNDO DANÇA



Aprendi a dançar assimilando e copiando alguns passos feitos pela professora. Sem grandes questionamentos em relação ao que ela fazia e mesmo fora de ritmo, comecei a reconhecer o meu corpo, a dominá-lo e a usá-lo para execução dos movimentos. Logo no início da aprendizagem, fui conduzida a endireitar a coluna e a mantê-la esticada, durante toda a dança, como se quisesse constantemente alcançar o céu. Também aprendi a travar o abdômen, a fim de poder caminhar em equilíbrio.


Devagar fui aprendendo a transferir o peso do corpo de um lado para o outro, a sentir o chão a cada passo de deslocamento realizado, a saltar e pisar com leveza, amortecendo todo o impacto, a girar várias vezes seguidas sem ficar tonta, através do truque de fazer a cabeça sair e chegar antes do corpo, como se conferisse rapidamente o caminho a ser percorrido. Ainda me ensinaram a movimentar os braços com graça, para florear o bailado e seduzir o público. Por fim, aprendi a ouvir a música e experimentei encaixar os balanços no ritmo ou na melodia.


Evidente que, às vezes, alguns movimentos fugiam do meu controle e escapavam, errados, como se fossem involuntários. Havia também situações em que eu pretendia fazer um determinado movimento e ainda sem muito domínio, o realizava equivocadamente e surpreendentemente, descobria um outro. Já nos casos em que eu acertava o passo com perfeição, logo me apresentavam a versão aprimorada do mesmo. Cada acerto era a porta aberta para um novo desafio, para um nível superior de dança. E assim fui evoluindo passo a passo até ser capaz de uni-los.


Ainda em um processo embasado em cópia, eu seguia sequências definidas por outros, com as quais aprendia a unir os movimentos tecnicamente já dominados. O desafio era ligá-los de forma a iniciá-los e a finalizá-los sem deixar buracos notáveis entre eles, que acarretariam na falta de harmonia da coreografia. Todos os movimentos deveriam ter começo, meio e fim bem definidos e executados, para garantir um todo satisfatório.


Ocorre que um dia me dei conta que ainda não sabia dançar, se não fosse por cópia, seguindo o mestre, qualquer mestre que fosse, mesmo sem o mestre estar ao meu lado. Eu havia incorporado movimentos, posturas e expressões que eram lindas, mas não eram minhas. Tornei-me uma boa dançarina da alma alheia e por isso não encontrava mais beleza e significado na minha própria dança.


Quando atingi tal consciência, resolvi dançar ao meu modo. Foi aí que percebi que desconhecia o meu modo. Para executar bem a minha dança, eu tinha que escolher entre a emoção ou passos bem realizados. Meu cérebro, meu corpo, meu ser, não conseguiam alinhar as duas coisas. A decodificação do que eu sentia para como eu agia dançando era algo muito difícil, perturbador e eu, não poucas vezes, pareci desgovernada. Foi frustrante perceber que conhecimento significa muito, mas não tudo.


Nesse momento, me desafiei a mergulhar em um terceiro nível de aprendizado: o momento em que nos descobrimos para criarmos uma dança expressiva de nós. Ouvi as mesmas músicas que já ouvia, mas de um modo diferente. Entendi os sentimentos que cada canção me despertava. Reconheci que a música deve passar para o cérebro para virar movimento, mas não antes de passar pelo coração. E que prefiro melodia ao ritmo, e isso não tem problema algum. Repeti todo o processo de aprendizagem como se eu fosse uma iniciante, mas de uma forma mais consciente, de cabeça e de coração.


Fui sentindo cada nuance das movimentações que eu fazia, combinando as emoções que os movimentos do meu corpo me transmitiam às emoções que as músicas também me transmitiam. Sentia uma mescla de desânimo, por estar depois de anos reaprendendo a dançar, com uma determinação de fazer melhor, de verdade, diferente. E isso me trouxe, sem dúvida, uma maior harmonia às sequências coreográficas do que a trazida pelo simples uso racional de técnicas.


Posso dizer que só depois disso aprendi a dançar de verdade, o que não significa dançar de tudo, o tempo todo, acertando de primeira. A cada nova música ou coreografia, preciso trilhar novamente o processo de alinhamento entre emoções e movimentos. A prática cria resistência, mas não elimina as etapas a serem percorridas para a harmonização entre alma e corpo, nem os novos sentimentos consequentes desse percurso.


Podem existir muitas danças aparentemente belas e harmônicas, mas sem sentido algum para quem as executa. Podem existir dançarinos tecnicamente perfeitos, mas sem conhecimento de suas próprias almas. Podem existir danças e dançarinos estacionados, satisfeitos ou não, em alguma parte do processo descrito neste texto, que relata muito superficialmente como foi o meu processo de aprendizagem na dança e como é também a nossa passagem pela vida.


Um dia comprei uma camiseta que dizia que nesta vida todo mundo dança. E dança mesmo. De um jeito ou de outro. Com a alma ou como preferir.

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