NU DE CORPO E ALMA: SOBRE LEVAR UM PÉ NA BUNDA NUA



Cheguei tão no fundo do sofrimento amoroso que passei a acreditar que uma pessoa que fosse boa de coração e que acreditasse minimamente no amor, já seria o máximo e o suficiente para eu ter um relacionamento sério e promissor. Foi nesse pensamento ridículo de Maria que comecei a namorar Francisco.

Não fazia meu tipo físico, mas tinha um sorriso bonito. Não tinha a minha visão de mundo, mas tinha a dele, pior seria se não tivesse nenhuma. Não estava estabilizado financeiramente, mas tinha profissão e sonhos que enganavam a minha mente e me faziam ter esperança de que sua fase ruim iria passar. Fase de grana, de humor, de frustração consigo mesmo que, ao meu ver, o deixavam carente de mim.

Ele foi ficando na minha casa por mais dias do que eu gostaria e a minha paixão não veio. Se tornou financeiramente dependente de mim para sustentar o namoro e a minha paixão não veio. Tinha pensamentos muito diferentes dos meus e andava na minha frente mais de pijama do que de roupa e, infelizmente, a minha paixão não veio. Ele me cobrava tesão, que não veio; entrega, que queria ir embora a cada cobrança; amor, o qual ele não dava condições de chegar. Ele não se fazia apaixonante.

Quando, aos três meses de namoro, me colocou contra a parede dizendo que eu não o gostava como ele gostaria e por isso ele terminaria comigo se eu não mudasse, a minha paixão não só não veio, como a admiração remanescente foi embora. Simplesmente porque há coisas que não se impõem, se conquistam. Curioso é que quando Julia aproveitando a situação, relatou a ele tudo que a desagradava e a impedia de se envolver como ele queria, disposta a alinhar os desejos e salvar a relação de Maria, ele não aceitou.

Ele era do tipo “eu sou assim e pronto” e Julia odeia esse tipo, aliás, o amor odeia esse tipo. Temos que ser a gente em essência, mas o amor exige troca e o mínimo de altruísmo e flexibilidade. Ele achava que se declarar e deixar a prática da evolução do relacionamento sob a responsabilidade do outro bastava.

Entretanto, insistente que Maria é, tentei de coração por mais um tempo investir no relacionamento. Afinal, apesar dos desapontamentos, só tínhamos três meses juntos, em um cenário financeiro e emocional não muito favoráveis a ele, portanto haveria esperança das coisas melhorarem. Busquei fazer a minha parte por mais um tempo, que ele usou apenas para analisar as minhas mudanças diante do que o incomodava e não para se autoanalisar.

Sete meses de namoro: fomos viajar. Eu achei que seria ótimo para as coisas melhorarem e nos dei essa chance, mas pioraram. Aprendi que viagem só dá “up” em relacionamentos felizes. Os que não são e usam da tática, ou se afundam definitivamente ou permanecem na mesma merda. Acho que nós nos afundamos definitivamente.

Ele queria dormir e eu ir a praia. Ele queria ir de carro e eu a pé. Ele queria ficar sentado e eu dançar. Ele lia sentado em uma cadeira “Mulheres que amam como lobas” com cara de intelectual e eu lia, esticada em uma espreguiçadeira, “Simplesmente “ de Martha Medeiros, com cara de estou de férias. Ele refletia profundamente a cada frase que lia, enquanto eu gargalhava e suspirava acreditando em um amor bom, mas leve.

Voltamos da viagem. Passamos mais um fim de semana na minha casa. Jantamos a pizza que eu comprei. Tomamos o vinho que eu ganhei. Dormimos. Creio que ele dormiu já desistente, mas covarde. Acordamos e transamos. Egoísta, ele terminou comigo na sequência da transa, ainda estávamos pelados. O discurso de término dele foi cheio de arrogância, mas disfarçado de amor- próprio. Francisco sempre bateu no peito se dizendo sincero. Acho que por isso levou a sério e distorceu a questão de ser nu de corpo e alma.

Chorei a humilhação da cena de ter levado um pé na bunda, na minha cama, às minhas custas, como vim ao mundo e também a perda de tempo de estar tentando de verdade que nascesse um amor daquela patifaria de convivência. Apesar dele dizer que não, eu estava no relacionamento de alma. Alma iludida.

Aprendi que o que é ser gente boa é muito relativo e é requisito mínimo para se relacionar, mas ainda não é o suficiente; e que amor não nasce em qualquer terreno. Tem que ter o algo mais para que a admiração dê luz ao amor. Tem que ter também conquista constante e dúbia, dedicação mútua um ao outro. Tem que ter, entre muitas coisas, respeito a nós, mas também ao parceiro, do começo ao fim. Estar nu de corpo ao encerrar um relacionamento não é nudez de alma, é simplesmente desrespeito ao outro, que por sua vez poderia estar, ao modo dele, nu de alma.

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