O DIA DO MEU NÃO CASAMENTO



Sempre achamos que os seres de luz nos criticarão por reações e ideias estapafúrdias, mesmo que sejam para nos curarem das feridas no coração. Que seremos convencidos por eles a ignorarmos as atitudes alheias, assim como as dores que os mesmos nos causaram, usando da mesma indiferença que sente uma barata. Como se fazê-lo fosse uma atitude superior.


Por sorte ou merecimento, comigo não foi bem assim. Esperando ser bombardeada de críticas, fui movida por Maria a dizer para aquele representante de Deus, que Julia havia me inspirado a organizar uma festa de não casamento. E que Maria, por sua vez, não estava confortável com isso, como se fazer a festa fosse uma atitude ofensiva a Jorge. Maria não gostava de ferir ninguém, mesmo tendo sido imensamente ferida. Também não gostava de desobedecer as leis dos céus. Seria pecado fazer a festa de não casamento?


Maria teria feito Julia desistir da comemoração se aquele ser que me ouvia, com ouvidos de amor, não tivesse concordado que o fim do meu relacionamento merecia sim ser celebrado. Primeiro, por ser um grande livramento, segundo, por ser um marco na minha evolução. Quem não cresce depois de uns tapas da vida? Terceiro e o mais importante, por ser um apoio emocional de Julia para mim, um consolo para Maria, um carinho de mim para mim mesma e de amigos, para que eu tivesse força para prosseguir ainda acreditando em um futuro bom. Quarto, por ser um direito meu.


Na verdade, a festa era questão de sobrevivência. Era mais um jeito, entre tantos que eu estava buscando, de fazer a superação nascer a fórceps em mim. Era como se a elevação da minha vibração no momento da festa, funcionasse como alavanca para a elevação da minha energia para o resto da vida. Era quase um mecanismo de reconquista da fé. Era eu me obrigando a dizer para o mundo que estava tudo bem, mesmo que ainda não fosse exatamente assim. E de tanto dizer, tudo ficasse realmente bem em um dia não muito distante.


Se casar é bom eu ainda não sei, mas garanto que não casar pode ser revitalizador. E até que divertido. Após cortar o bolo que continha Jorge enfiado por mim, de ponta cabeça, em uma cobertura bem doce de chantilly , chegou a hora de jogar o buquê. O músico do bar, no qual ocorria a festa, anunciou o momento. Silêncio. O bar parou. Talvez fossem inéditas as comemorações de livramentos. Uma pena não ser um costume cultural, já que por trás deles sempre há uma vida nova recheada de oportunidades, tal como em um nascimento. Esperei vaias. Não as ouvi.


O músico iniciou a contagem regressiva. Para a minha surpresa o bar começou a contar junto. Um, de ânimo. Dois, de coragem. Três, de início de emponderamento. Lancei o buquê para trás. Pensei que ninguém tentaria pegar as flores de uma ex-noiva, além de alguma amiga muito leal a causa de me reerguer, mas me enganei. Muitas mulheres, nunca vistas antes por mim, se levantaram das mesas ao redor e se posicionaram para agarrar os botões, que naquele momento representavam a transformação. A princípio, a minha.


E ao lançá-lo, o mesmo foi rodando pelo ar, jogando o meu grito de dor para fora, rodando, dispersando todo meu sentimento de rejeição, rodando, eliminando minha revolta, minhas frustrações, meus sonhos desmoronados, rodando, consolando meu coração, rodando e movimentando energia de renovação, desenvolvendo a minha força interior, minha autoconfiança, rodando e me curando, me lançando para novos sonhos, para uma nova vida. Rodando e trazendo para mim a força dos outros e dando aos outros força também. Rodando e unindo emocionalmente tanta gente que sente.


O buquê caiu na mão de uma desconhecida. Desconhecida de corpo, mas não de sentimentos. O bar aplaudia e gritava com entusiasmo. Ela me abraçou apertado e me parabenizou pelo dia, como é costume fazer às noivas que realmente casam. Ela sabia que aquele buquê carregava esperança. Era também o início de um caso de amor próprio. Pegou um não casado da bandeja de docinhos. Nunca um não casado foi tão doce. Nunca um não casamento foi tão renovador. E inspirador! A moça se despediu revitalizada também. Viva os recomeços de vida!

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