O EQUILÍBRIO EM MIM



Não poucas vezes fui taxada de idiota ou de inocente. De boba. E foram transferidas para mim, por ser demasiadamente boa, a responsabilidade total pelo sofrimento que o outro me causou, justamente por não ser tão bacana e responsável com o próximo assim como eu. Digo responsabilidade total, porque reconheço que se alguém nos faz algo de ruim é porque permitimos, valorizamos, e na grande maioria das vezes, mas não todas, poderíamos ter evitado colocando algum tipo de limite no cidadão ou em nós mesmos.


Cansada desse contexto, Julia reagiu forte aqui dentro obstinada a provar aos outros que eu não era a fraca que queriam me convencer ser. Que eu não era uma ovelha negra de pensamentos desarticulados, quando comparados aos da grande maioria dos humanos. Eu apenas enxergava as coisas por outro ponto de vista. Era uma ovelha pink, bem peludinha e fofa, cheia de amor no coração e boa fé, vindos de Maria, características do espírito, irreversíveis, já que na evolução não há regresso e é pra ter o coração bem puro que todos caminham. Os invejosos que se mordam de ódio de Maria.


O problema estava, principalmente, em eu não saber colocar limite no outro, aqui nesta terra trevosa de meu Deus. Maria se atrapalhava com isso. Perdia-se em sua bondade e valorização do próximo. Portanto, sofrer por conta das ações alheias estava vinculado à presença de algumas características de personalidade e espírito não muito legais no outro, somadas a doses pequenas, bem pequenas de Julia em mim, mas nunca à existência e à presença de Maria. Há uma grande diferença entre faltar Julia e ter Maria. Para a falta de Julia e os padrões que geravam isso havia conserto, agora para a evolução de Maria não. Graças a Deus. Ninguém merece “desevoluir”.


O que ninguém percebia, é que a bravura, a determinação, a altivez, a racionalidade de Julia e suas ações, frutos de sentimentos bem opostos aos de Maria, só apresentam resultado efetivo e duradouro, quando acompanhadas da ternura, fé, esperança e outros sentimentos decorrentes do amor da mesma. Portanto, matar Maria e me tornar apenas Julia, seria acabar com a parte que me conduz no percurso da vida de forma coerente com os meus valores.


Julia é sim a minha salvação, mas não porque é melhor do que Maria. E sim porque ela sendo o contrário da outra, me equilibra. E o equilíbrio salva. Mas Maria é quem detém a minha força interior. E de nada vale força exterior sem força interior, meus caros. Sem Maria, Julia é apenas uma guerreira peituda de causas pequenas, causas próprias. Com Maria, Julia é guerreira de causas profundas. É importante para o mundo e não só para si.

Com Maria e Julia agindo juntas, em sintonia, me torno a amorosa que sabe para quem dar seu amor. A que aposta, mas sabe a hora de parar. A cheia de amor próprio que não se torna egoísta, egocêntrica, arrogante e injusta. A profissional que por colocar amor em tudo que faz, é bem sucedida. Que tem intuição, mas tem também conhecimento. A esposa que é carinhosa, mas não abaixa a cabeça. Que respeita os direitos do outro, mas também exige os seus. Que faz pelo próximo, mas também sabe que precisa fazer por si. Que tem um peito que transborda amor, mas não a impede de caminhar firme e forte, pelo contrário.


Lamento profundamente pelas pessoas que alimentam apenas a Julia dentro de si, que asfixiam a sua Maria ou até já a mataram, seja como uma atitude defensiva em resposta a todo sofrimento por qual já passaram, seja por equívoco de consciência acreditando que é mais forte quem é mais racional, mais frio, mais duro, mais esperto, mais briguento, menos entregue de alma. Sinto muito por quem acredita ou acreditou que todo meu sofrimento e problemas da minha vida tinham justificativa na presença de Maria, como se ela fosse um erro.


Enganou-se. Ser apenas ou predominantemente Julia é algo que cria uma aproximação excessiva da razão, uma distância imensa do coração e logo, uma grande distância de nós. Ser Julia vicia porque é mais fácil, mas cria em nós uma fortaleza falsa, de ações superficiais.


Lutemos sempre para sermos duas em uma só. Duas consciências extremas, mas equilibradas. Razão e emoção. Realidade e sonhos. Ação e reflexão. Cautela e coragem. Autoconfiança e fé. Afinal, tudo que é duplo é mais forte, é completo. Ao mesmo tempo, tudo que caminha apenas para um extremo, não caminha para o progresso. Nem pessoal, nem coletivo. O equilíbrio de nós é o segredo do sucesso. Um brinde à Maria e à Julia que vivem dentro de cada uma de nós, no desafio diário do equilíbrio perfeito.

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