• Maria Julia

PARA NÃO MORRER DE AMOR

Atualizado: 7 de Mai de 2018

Era o último hambúrguer e a última porção de batata frita engordurada que comeríamos juntos, mas eu nem imaginava. Enquanto ingeríamos uma boa dose de gordura trans, Jorge me contava sobre a chantagem emocional que fez com uma funcionária, no intuito de que ela confessasse uma mentira. Jorge jogava bem.



Enquanto ele falava, eu o olhava com aquele ar de Maria apaixonada que não leva em conta o que a pessoa diz ou faz, apenas ama. Ao mesmo tempo, Julia o analisava e indignava-se com o ato grandiosamente estratégico e desnecessário de Jorge com sua subordinada, entretanto, por ser bem adestrada, não se impunha às verdades e desejos de Maria, apenas seguia.


Para Julia eram evidentes as grandes diferenças entre Jorge e eu, mas no mundo de Maria, doce Amélia no país das maravilhas, diferenças eram releváveis em nome do amor e Julia deveria batalhar pelo relacionamento até eu estar definhada, quase não existindo mais.


Embora para Maria minha relação com Jorge fosse tranquila e aparentemente feliz, Julia o notava tenso há algumas semanas com os preparativos do casamento. Daquele jeito que ficam as pessoas que querem ir embora, mas não possuem coragem de largar o que se tem.


Acontece que naquele dia, depois de uma década de amor ou semi amor, felicidade ou semi felicidade e alguns contratos fechados, os quais teoricamente concretizavam a união efetiva de nossas vidas, bem como nosso comprometimento mútuo, ele teve.

Ao sairmos da lanchonete e entrarmos no carro, Jorge rompeu o noivado como quem devolve ao Pet Shop um cachorro que cresceu demais e pelo porte que tem, não cabe mais no quintal dos fundos da sua vida.


O baque foi tanto ao receber a notícia sobre o fim, que a princípio nem Maria e nem Julia reagiram. Permaneci estática. Após o desenrolar do discurso argumentativo de Jorge para justificar o término de nosso relacionamento, com motivos que iam da cor e tamanho das minhas calcinhas até as minhas conquistas de vida, Maria, como sempre, tentou consertar as coisas. Entretanto, não havia mais o que pudesse ser feito. Jorge não queria tentar mais nada. A covardia tinha o tornado grande e corajoso, mesmo que por apenas alguns instantes.


Bege era sim a cor da minha roupa íntima, mas Jorge não pode notar que se não era a cor do pecado, era a cor do meu corpo, que ao se confundir com a minha pele, davam a ele a chance de me enxergar nua, sem nada, exatamente como sou.


Diante dos argumentos de Jorge, eu só conseguia pensar que naquele momento a calcinha que eu usava já estava preta. Da mesma cor que estava a minha alma inteira. Preta da cor da semi-morte: quando se vive sem vontade de viver. Eu que sou duas, me senti nenhuma. Era o fim de nosso relacionamento e quase foi o meu próprio fim.


Quando Jorge saiu do carro, Maria desatou a chorar. Julia se revoltou ao vê-la sofrer e a partir daí começou a aflorar dentro de mim, mais confiante, mais ativa, mais marcante, gradativamente, para sempre. Desde então reconheci as duas faces pelas quais sou composta, tal como a importância de cada uma delas em minha vida.​​


Há quem diga que dor de amor não mata. Eu que amei de verdade digo que pode matar sim, por doses homeopáticas. E para não morrer de amor, me reconheço, me transformo e escrevo.

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