• Maria Julia

PRAZER ABSOLUTO



Ele intimidava Maria, mas já não intimidava Julia. E Jorge nunca imaginou que ao terminar nosso relacionamento, Julia despertaria e se posicionaria dentro de mim mais viva, forte e determinada do que nunca. Jorge errou nos cálculos. A propósito, foi Julia que marcou o encontro com o rapaz quase que desconhecido, baixinho, moreno, beiçudo e sensual, o oposto de Jorge. Vitório era o nome dele.


O objetivo do encontro não era só orgulhoso, visando elevar a autoestima de Maria, que estava arregaçada após o humilhante pé na bunda que levei. Era também exploratório, a fim de descobrir cientificamente o quanto as lingeries beges interferem ou não no desejo masculino, como faria qualquer cientista amorosa e sexual, qualquer Julia, prestes a pirar se sentindo a pior mulher na cama de todos os tempos, devido às culpas de Maria, que Jorge fez questão despertar.


Na verdade, no encontro havia como objetivo a deprimente necessidade de Julia constatar o quanto eu tive de responsabilidade no fim do meu relacionamento e se Jorge tinha razão em me condenar como a Miss Frígida dos últimos tempos, o que afogava Maria em um mar de autopunições.


Sair com um estranho deveria ter sido desconfortável para quem saiu uma década com apenas um homem. Mas não foi. Porque o quase desconhecido Vitório foi capaz de me deixar mais à vontade em uma noite, do que Jorge em várias. Creio que Maria relaxou e Julia baixou a guarda ao perceberem que eu estava sendo olhada com admiração, ouvida com interesse, tratada com delicadeza, enxergada como mulher, excitada com respeito, desejada como doce fino e não como uma sobremesa sexual após um almoço de domingo.


Jorge, que justificou precisar de calor e emoção na cama ao terminar o noivado comigo, adorava transar todo domingo após o almoço, com a barriga cheia de frango e macarrão, e o coração vazio. Mas coração vazio não excitava Maria e tal rotina não movimentava Julia. E eu não sabia. Jorge também não. Ao ponto dele acreditar que o problema estava em mim, só em mim, única e exclusivamente em mim. Ao ponto de eu acreditar.


Quando o rapaz delícia tirou a minha roupa, não olhou para a minha calcinha, porque nesse momento, olhava no fundo dos meus olhos. Assim como Bruno e Marrone, enquanto eu o beijava, desejava que o destino mudasse por um minuto e eu encontrasse em seu corpo um prazer absoluto. Tudo isso apenas por eu estar radiante e aliviada, descobrindo que a culpa pelo fim do meu relacionamento sexualmente pouco ativo não era só minha.


Jorge soube disso. E em um ato de fúria, posse e orgulho mais do que ferido, ainda não satisfeito com todo o mal que já havia me causado, sentindo-se o primeiro solteiro traído, se posicionou na frente da minha casa, gritando em alto e bom tom o quanto eu era puta.


Puta por Julia ter tido a garra de experimentar a realidade e livrar Maria de culpas injustas e paralisantes. Puta por eu ter coragem de seguir sem ele. Puta, por ser mulher que tem Julia empoderada dentro de si, reage e não morre submissa e ofendida. Puta por ter gozado com outro homem. Puta por, a partir de então, poder gozar da cara de Jorge e de seus argumentos patéticos para justificar a sua partida. Vitória!

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