• Maria Julia

QUANDO A VIDA DÁ SINAIS: O DIA EM QUE PERDI MINHA ALIANÇA



A vida é cheia de nos dar sinais que não enxergamos. Eu não sei, mas acho que a tal história de que quanto mais difícil é conseguir algo, melhor é a conquista, é uma enorme furada para casos de amor. A maioria das histórias com desenvolvimento conturbado que já vi e vivi fracassou no final, trazendo bastante sofrimento para a parte mais (ou unicamente) entregue ao relacionamento.


Tenho a impressão que o verdadeiro amor flui naturalmente, bem gostosinho, tipo uma valsa. Se o negócio faz você sambar o tempo todo é carnaval. Portanto, só fique se não quiser amor. Mas se quiser, pule fora. E claro que para detectar se a música de um respectivo momento ou situação da vida é samba ou valsa, é necessário nos atermos ao ritmo, melodia e harmonia da mesma. O que no meu caso com Jorge ( e com mais umas dezenas de caras pós Jorge), eu não fiz.


Jorge me pediu em noivado após eu suplicar muito por isso. Ele me presenteou com uma aliança de ouro, a qual eu, inocentemente, achei que representava o comprometimento dele comigo, independente da minha insistência para casarmos. Mas não, mais para frente ele confessou que o pedido de noivado foi apenas para ver se o meu desempenho sexual melhorava. Tipo uma noiva louca pra transar pré casamento, devido à grande excitação com o momento. Já conheceu alguma assim? Eu não. O fato é que a joia era uma aliança interesseira, paga parceladamente, como se ele pagasse parcelas por sexo. Broxante assim mesmo.


Mas se eu vivia em um mundo de ilusão acreditando que as intenções de Jorge eram boas, a vida sabia que de puras elas não tinham nada. A tal da aliança interesseira não era símbolo de amor e união e eu não merecia isso. Foi aí, que creio que a vida achou um jeito de me dar um sinal de que eu estava embarcando em uma furada: no dia em que fui fazer as minhas unhas, não sei como e ninguém sabe também, a tal da aliança sumiu.


Ao chegar em casa, percebi que faltava algo no meu dedo, além das cutículas retiradas. A aliança não estava mais lá. Há quem ache que ela tenha se perdido na luvinha com creme que as manicures amigas colocam em nossas mãos. Há quem diga que ela deve ter sido arremessada enquanto eu falava e gesticulava como uma boa descendente de italianos. Há quem afirme que ela simplesmente se desmaterializou, tipo um milagre, como dica do Universo sobre o sofrimento pelo qual eu ainda passaria e como sugestão para que o evitasse, terminando o meu noivado falso com Jorge o quanto antes. Mas não captei a mensagem. Maria não captou.


Após Jorge me acusar de ser irresponsável e ingrata por ter perdido a aliança que ele ainda não tinha pago e me dito que não só não compraria outra, como também pararia de usar a dele, Maria desesperada e a manicure amiga foram revirar o lixo do salão atrás da peça. Achamos cabelos, luvas sujas, papéis de banheiro fedidos, todo tipo de resto consequente daquele dia de trabalho e de embelezamento das mulheres aparentemente felizes que passaram por lá, mas não encontramos a aliança. Nem no meio de tanto resto. Nem no meio de tanta merda.


Cega, e ainda sem saber sobre o vale sexo, só me restava comprar a reposição da tal joia em suaves dez parcelas, que no meu caso representavam a minha esperança na melhora do relacionamento abusivo com Jorge e no fim de sua insensibilidade. No mês que paguei a terceira parcela, ele terminou fria e ofensivamente o nosso relacionamento, falando barbaridades que marcaram a minha alma por um bom tempo, ou talvez para sempre. Entre as pérolas, nada valiosas, que Jorge soltou em tal situação, mediante a fúria de ver que eu não me submeti aos desejos insanos dele para manutenção do noivado, incorporando Bruno e Marrone, afirmou que pensava que eu era uma joia rara, mas era uma bijuteria.


Bijuteria era a aliança que ele me deu. Não em material, mas em significado. Porque não simbolizava nada mais do que uma união superficial e passageira, estrategicamente levada adiante até que não fosse mais interessante para ele estar (ou transar) comigo. Era uma bijuteria vagabunda, diga-se de passagem. Vagabunda da laia dele, isso sim.


Quanto a mim, talvez eu realmente seja uma bijuteria, daquelas finas demais para Jorge apreciar. Quanto à manicure, continua sendo uma grande amiga. Não teria como não ser, né? Ela foi a ferramenta do Universo para me mandar um alerta vermelho sobre o casamento infeliz no qual eu me meteria. Eu é que não entendi o recado. Sejamos mais atentos aos sinais que a vida nos dá.

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