QUANDO PARECE QUE A VIDA DECIDE POR NÓS



Passei muito tempo revoltada com a vida devido aos pés na bunda que já levei de gente da qual eu gostava muito. Não entendia o porquê eu sempre estava na situação de ser escolhida, ou melhor, rejeitada. E nunca de escolher. Por que a vida não me dava a chance de optar pelo meu caminho e de ficar realmente com quem eu desejava? Quando eu poderia mandar na minha própria vida?


Com o tempo fui percebendo que as coisas não eram bem assim como eu as enxergava.

Primeiramente, porque só podemos mandar na parte de nossa vida que depende exclusivamente de nós, o que não se aplica em caso de relacionamentos, de querer ficar com alguém. Nesse caso, sempre tem um outro envolvido no processo. E paciência.


Em segundo lugar, porque Maria é excessivamente teimosa. Acredita sem freio. Teima em situações que gritam de evidências muito negativas. E se acreditar sem evidências nenhuma é fé, acreditar após tantas evidências ruins é teimosia burra. Por vontade própria, ela fica lá, dando a minha cara a tapa incansavelmente, me decompondo de sofrimento, esperando o outro me dizer adeus. E muitas vezes a vida, por algum motivo não identificado racionalmente por mim, talvez incentivada pela energia de Julia, faz a gentileza de me tirar à força das tais situações destrutivas, sem ligar para os berros de revolta de Maria, assim como faz uma mãe com a filha mimada que está correndo risco fazendo o que deseja.


Em terceiro lugar, há toda a questão do nosso inconsciente estar conduzindo através de nossas ações, o nosso destino para um rumo que o consciente ainda não captou, mas o qual desejamos. Dentro desse raciocínio, nem sempre quem verbaliza o fim foi quem terminou de fato o relacionamento. O mesmo pode ter sido rompido pela insatisfação silenciosa da outra parte, por uma alma que já foi embora faz tempo, sem olhar pra trás. Não poucas vezes, quem verbaliza o fim, o faz por medo de ser deixado, por orgulho ou por acreditar que mais nada podia ou valia a pena ser feito. Faz até ainda amando o outro, que não foi o real rejeitado.


Creio que por merecimento, após ter compreendido os fatos acima de cabeça e coração, com Julia e Maria, e também por ter desconstruído a imagem dos ex-namorados fake Deuses que passaram pela minha existência, dando a certeza para a vida que eu não corria mais o risco de querê-los novamente, ela me recompensou. Trouxe todos os falecidos amores de volta para mim. Presente delicioso para uma pessoa medianamente evoluída como eu. Sim. Enquanto eu desconstruí as imagens deles com o tempo, concluindo que foi melhor eles terem partido, eles reafirmaram a minha, concluindo que era melhor terem ficado.


E o jogo sempre se inverteu. Eles passaram a me querer de volta e eu, passei a querer o que a vida já tinha direcionado: seguir sem eles. Mas dessa vez a decisão era minha, mesmo que optasse pelo mesmo rumo que a vida já tinha tomado. Verbalizar o não me aliviou daquele sentimento de impotência e rejeição, mas não mudou a rota que a minha vida seguia. E essa é a questão.


Fazer escolhas é importante, querer ter o domínio de nossas vidas é um desejo legítimo e necessário, mas se queremos o nosso melhor, e nossas decisões forem embasadas nesse objetivo, não serão muito diferentes da condução natural da vida. Tudo sempre acontece como deve ser. Nós que não acreditamos nisso, tal como duvidamos da nossa participação em tudo o que ocorre conosco. Existem muitas decisões que também são tomadas por nós, além das que saem pela nossa boca.

116 visualizações0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo

Contato

3.png
190505.png