• Maria Julia

SAUDÁVEL DE CORPO E DOENTE DE MENTE



Ontem fui ao médico levar resultados de exames. Tirando a gastrite nervosa, o transtorno de humor por perfeccionismo e o alto estresse, não há absolutamente nada de errado com a minha saúde. Disse ele que o meu colesterol bom, é bom demais. E o ruim, também vai bem, obrigada. Não tenho tendência à diabetes e nem a problemas cardíacos. Nada de gordura no fígado. Também nada de errado com a tiroide (Estou um pouco triste por isso. Hipotiroidismo é sempre a esperança dos gordinhos para justificar o sobrepeso e assim, encontrar a solução do emagrecimento, afinal, um remedinho poderia, facilmente, resolver tudo.).


Pois bem. De doenças mesmo, só as da cabeça. Inclusa a que torna para mim a notícia do sobrepeso mais importante do que a da invejável saúde. E que me faz desejar, loucamente, no sentido literal da palavra, ter alguma doença que justifique o número que aparece na balança quando subo sobre ela.


Um amigo me disse que eu sou a pessoa com colesterol bom mais alto que ele conhece. Fiquei honrada, claro. Mas ainda triste por não ser a pessoa mais magra que ele conhece. Estou cansada, cansada de ver o copo meio vazio quando o assunto é o meu corpo. Estou exausta de me olhar no espelho e só ter críticas a fazer a mim mesma. E por mais que eu saiba, e de tempos em tempos me convença que eu sou mais do que a aparência e então, me sinta verdadeiramente bonita, a autotortura também me domina em outros tempos em tempos. Ambas as sensações se alternam, de forma cíclica, típica das pessoas perturbadas e que foram adestradas a quererem ser o que não são. E sofrem por isso.


É a droga do padrão magro pré-estabelecido e inserido em nossos cérebros, como se peso ou medidas fossem mais importantes do que exames de laboratório. Há pouco entrou em moda a bioimpedância, em detrimento do IMC, que pesa de maneira aprofundada tudo que está dentro de nós: água, gordura, ossos, massa muscular e etc. Nossa, aí pareceu estar tudo resolvido no aspecto de que cada indivíduo seria considerado um indivíduo único! Redundante? Não. Pelo contrário. Novamente anulante.


Se o IMC não considerava, de modo aprofundado, os pesos da água, gordura, ossos e massa muscular, entre outros, como partes do nosso peso, para apontar o ideal, a bioimpedância ainda não considera sentimentos negativos, baixa autoestima e impulsos de Maria que levam a indisciplina e a autocondenação destrutiva de Julia. Também não mede o quanto o desejo de ser o que não se é ou o que não é possível ser, faz de ruim com a nossa saúde de fato, começando pela mental e terminando um dia sabe-se lá onde.


Quem teve a brilhante ideia de fazer do biotipo menos existente, que é o magro (pelo menos no meu entorno), o padrão de beleza corporal? E pior, o magro além do natural, e não dificilmente, o não saudável? E ainda pior, nos convencer de que ser o magro do padrão é top. O parâmetro deveria ser saúde e mais nada. Ser gordo pode ser tão ruim quanto querer ser neuroticamente um magro hipotético. A Ditadura da beleza, neste caso, da magreza, adoece a nossa alma e faz perdermos uma vida inteira lutando para sermos o que fomos convencidos a querermos, mas não precisamos e nem naturalmente conseguiremos ser. E não é por nada, mas cobrança e frustração nos dão mais vontade de comer.


Estou na luta para me livrar da crença de que ser o magro do padrão é o correto, o melhor pra mim e logo, do desejo de sê-lo. Sou pesada de autocobranças e de metas impossíveis de serem alcançadas que entopem a minha cabeça, e talvez um dia, entupam as minhas artérias a ponto de pararem o meu coração.


“Doutor, estou quase com obesidade mórbida”, disse eu. “Você é louca. Sua saúde está ótima, emagreça só se quiser”, disse ele .


Incrível como ontem me animei a emagrecer o pouquinho que quero. Só um pouquinho. Não para ser a magra que grande parte da sociedade ainda espera, mas para me sentir bem comigo. Voltar a caber em algumas roupas. Continuarei gorda perante o IMC, a bioimpedância e os antigos padrões corporais pré-estabelecidos, mas não mais perante aos meus olhos. A não exigência de um padrão por parte do doutor me tornou, pelo menos por um momento, livre, encorajada, motivada e feliz. Ele me devolveu pra mim. Esse médico entende de gordos e de vida além do corpo. Quero foco no saudável e que todo o resto se exploda, com exceção de mim, é claro!

83 visualizações

© 2018 por Maria Júlia fala de amor. Todos os direitos reservados.