Somos colchas de retalho


Já me disseram que eu era louca e quase acreditei.


Quando pequena sonhava em ser cantora. Só que, segundo a minha mãe, eu não tinha voz para isso. Também não tinha para outras coisas, mas não percebia. Então me aventurei no teatro e na dança e optei pela última, porque eu tinha mais talento para mexer o esqueleto, do que para decorar textos.


Sem suportar a reprovação materna por querer ser artista de palco, fui estudar arquitetura. Afinal, era uma arte um pouco mais promissora financeiramente. Mas não abandonei nem por um ano as minhas aulas de dança...Cigana! Nada de Ballet, muito normal,sabe? Tanto Maria quanto Julia gostam de coisas mais diferenciadas. Tornei-me dançarina, professora e depois cartomante. Por penúltimo Arquiteta. E por último Arquiteta de Interiores. Amo cada detalhe da parte de dentro dos edifícios...e da cabeça e do coração das pessoas.


Depois de um tempo abandonei a Arquitetura e fui trabalhar com a minha família na empresa do meu pai...o que parece fácil, mas não é. A experiência me apresentou a vida em nível hard e amadureci tanto que fiquei dura, travada, com a alma impossibilitada de dançar. Para não sufocar, resolvi escrever. Mas sobre o que eu saberia falar com conhecimento? Montei um blog de arquitetura. Comprei câmeras, microfones, gravadores, mas a empresa me chamava tão alto que eu perdia a minha inspiração. Parei de me ouvir e guardei absolutamente tudo no armário. Até o sonho.


Para ocupar a cabeça pós fim de noivado, mas principalmente para ser aceita pelo meu povo, abracei tantas responsabilidades na empresa que me afoguei sem notar. Fui ensinada que quanto mais duros os desafios que eu vencesse, melhor para os outros eu seria e assim, obsessiva pelas conquistas suadas, desenvolvi um estresse crônico e como consequência, uma doença autoimune que me coça insuportavelmente a bunda. Deduzi que era Deus querendo me movimentar, através dessa coceira, para além da minha cadeira de escritório familiar.


Com a coceira clamando por mudança de vida, e já um pouco experiente nessa história de viver, compreendendo melhor os fluxos do Universo, nem sempre azuis ou rosas, tampouco cinzas, também com saudades de mim e de Deus, criei a Maju. Relacionamentos amorosos? Estava de férias deles na prática. Só os queria em frases e textos inspiracionais, porque a realidade mesmo tinha sido sofrida até então.


Conheci o Alex e o amor voltou a encantar os meus dias na prática. O amor traz cura, né? Marcamos o casamento. Diminuí o ritmo de trabalho na empresa, ví vida além de lá. Senti a delícia de viver e vontade intensa de um dia a dia mais livre, leve e solto. Entendi que vencer problemas não te faz melhor do que evitá-los. E que resultado não tem a ver com horas dentro de um escritório, sem ver o mundo. Pelo contrário.


Abri mão de toda e qualquer obsessão por cumprir metas, principalmente as que não eram bem minhas. Fiquei mais independente emocionalmente das pessoas que amo. Desejo que elas também fiquem de mim. Essa liberdade aproxima. Amei-me mais. Aprofundei-me em autoconhecimento. Chamei ajuda dos céus várias vezes e obtive. Eu me encontrei.


Decidi expandir a Maju.Confirmei nas cartas do tarot que era o caminho. Resolvi montar o espaço dela: meu templo inspirador e revitalizador; o lugar em que fico em silêncio para escutar a mim, a vocês e a eles do céu. Como arquiteta, fiz o projeto e coordenei a obra, decorei cada detalhe de seu interior, tirei as câmeras empoeiradas e equipamentos antigos do armário, otimizei serviços na empresa criando mais tempo para me dedicar à Maju. Planejei um novo conteúdo que misturasse poesia, reflexão, diversos tipo de arte, psicologia, espiritualismo e misticismo e assim, reunisse as minhas diversas partes.


Hoje, depois de muitas buscas por verdades, a vida se tornou a minha amiga mais íntima. Aprendi a entrar na dança dos chamados dos céus. Casei bem. Amor bom existe, até para as Julias mais empoderadas do planeta. Sou prova disso e de tantas outras coisas sobre as quais escrevo. Decididamente, tenho algo sobre o qual possa falar com conhecimento de causa, vivência, muito mais do que sobre teorias de arquitetura. Quem diria que minha Maria teria voz.


Definitivamente, não sou uma louca perdida entre milhares de caminhos. Sou uma enorme colcha de retalhos costurados pela paixão por viver. Sou partes aparentemente desconexas que unidas se tornam harmônicas e fundamentais para realizar tudo que Deus me predestinou a fazer. Isso também vale para você. Repare que tudo o que vivemos até o momento sempre faz sentido.


A preparação para o nosso destino anda conosco desde o primeiro dia de nossas vidas, em nós, situações e pessoas com as quais convivemos, nos amores e principalmente, nas dores. Confiemos na vida e nos sussurros do nosso coração. As nossas partes sempre se encaixam. E por confiar, escrevo.

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