TODO FIM É RECOMEÇO



Mais um fim. Desta vez de Jurandir, o filho da cigana que jurava que sabia das coisas e que afirmou que ficaríamos juntos.


Fechei a porta do quarto e processei em meu coração e em minha mente que estava solteira de novo. Eu poderia ter me encostado na quina entre as paredes e ter escorregado, contorcida naturalmente pela dor, entre lágrimas, como fazia Maria ao chegar ao limite do sofrimento, ou como faria qualquer atriz em um capítulo triste de novela mexicana. Maria poderia ter gritado aos céus por socorro, entre soluços de desespero. Julia poderia, com seu antigo pseudo ato de ousadia e bravura, ter batido no peito e prometido a Deus, com a segurança de quem sabe ser capaz de cumprir uma tarefa, qualquer coisa em troca de paz e do alívio da dor de Maria em mim. Sendo mais direta, em troca dele me desencalhar com qualquer Ex, trazendo-o de volta para o meu caminho.


Mas não, não deu tempo de ser assim. Algo havia mudado nesse tempo pós Jorge e Julia, cheia de si, já me fazia ter opiniões sobre felicidade melhores estruturadas, tal como o controle da minha vida mais em minhas mãos. Ela tomou a frente da situação, induzindo em mim aquela vontade louca de dançar a noite toda, descendo até o chão e subindo com a postura que tem toda mulher com o orgulho mais do que ferido, mas que possui a determinação de não tratar a perda de alguém como o fim da sua vida, e sim como o recomeço.


Tomei um banho para tirar a uruca e liberar a fé. Abri o armário como quem abre portas que guardam aprendizados e oportunidades. Peguei a lingerie nude e sensual que usei como prova de moral na saída com Vitório, mas desta vez visando seduzir a vida com tal simplicidade. Separei a calça justa e de cintura alta mais bonita que eu tinha, para marcar o meu jogo de cintura no espaço, durante os meus passos. Combinei com uma blusa esvoaçante e de cor viva, que comprei quando esperava tensa Jurandir me ligar, me convidando para sair. Blusa a qual eu ainda não havia estreado. Eu a vesti justamente para sentir o quão leve poderia ser a partida dele. Coloquei o colar com o qual Gabriel me presenteou, me lembrando de quão preciosa sou para muitos e deveria sempre ser para mim; passei o perfume que usava quando conheci Fulano, Ciclano e Beltrano, no intuito de deixar meu rastro por onde quer que eu fosse. De Jorge não levava nada, nada físico. De Jorge, eu levava as principais mudanças dentro de mim.


Calcei o salto para ver o caminho bem do alto. Vamos à pista. Vamos à luta. Armei o meu cabelo curto como quem arma o peito e o espírito de coragem. Espalhei a base na cara para suavizar as marcas da vida. Passei pó para ter serenidade. Pintei meus olhos de turquesa, sombra de esperança. Delineei as pálpebras de preto para marcar bem a raiz das coisas. Dei vida às bochechas com um blush rosado de Maria. Alegria. Na boca, rosa de menina, de saúde. Não precisava morrer. Levantei o olhar com duas belas camadas de rímel. Eu precisava viver: altiva, enxergando além. Fechei os olhos, lembrei do fim. Abri os olhos, vi recomeço. Coloquei os óculos contra ilusões. Eu vi Julia verdadeiramente seletiva e poderosa frente aos sonhos de Maria, consequentemente tão mais forte e mais madura de sonhos também.


Pelo espelho, me olhei e encarei de alma. Depois me medi dos pés à cabeça. Estava mais alta. Não eram os saltos. Havia crescido. Mergulhei para dentro de mim como nunca havia feito, era profundo. Quase não alcancei os pés no chão. Há tempos não me via tão bonita. Estávamos prontas. Eu não o queria mais. Eu não queria mais nenhum deles. Eu não me sentia sozinha. Julia tinha Maria, Maria tinha Julia. Elas tinham uma à outra e eu tinha as duas dentro de mim, cheias de energia, cada uma a seu modo. Queria a mim. Somente a mim, dançando a música da vida, seja lá qual fosse. E sempre arrasando na pista, é claro.

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